A descoberta da variante B.1.1.529 (ômicron) na África do Sul, que preocupa cientistas por ser potencialmente mais transmissível, não alterou —ao menos por enquanto— decisões do governo de São Paulo e da prefeitura da capital paulista para temas como liberação de máscaras e realização de festas de Réveillon e Carnaval.

Para questionar quanto a possíveis mudanças, a Folha procurou nesta sexta-feira (26), por meio de suas assessorias de imprensa, os gabinetes do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e do governador João Doria (PSDB), além das secretarias municipal e estadual de Saúde.

As perguntas feitas pela reportagem —sobre a manutenção da flexibilização das máscaras ao ar livre a partir de 11 de dezembro no estado de São Paulo e autorização para eventos de Réveillon e Carnaval— não foram respondidas pela gestão municipal até a conclusão deste texto.

A Secretaria de Estado da Saúde afirmou, em nota, que monitora o cenário epidemiológico no território e que o comportamento de um vírus pode ser diferente em locais distintos, em virtude e fatores demográficos e climáticos, por exemplo.

O órgão recomenda que a população se vacine contra a Covid-19 e diz, ainda, que qualquer medida adotada para enfrentamento da pandemia é precedida por análises técnicas junto ao Comitê Científico e ao Plano Estadual de Imunização, à luz dos indicadores da doença.

Nos últimos dias, antes do surgimento da nova cepa, algumas cidades do interior paulista e também do litoral já haviam decidido cancelar as comemorações de Carnaval.

Os temores de que a nova variante seja ainda mais transmissível do que a delta, mas não tão suscetível às vacinas já disponíveis, fez governos de diversas partes do mundo suspenderem voos vindos do sul da África ou exigirem quarentenas a quem chega dos países em que ela foi já detectada, como Israel e Bélgica, além dos africanos.

Na noite desta sexta, o Brasil decidiu barrar a entrada de quem esteve, nos últimos 14 dias, em seis países africanos: África do Sul, Botsuana, Suazilândia (Eswatini), Lesoto, Namíbia e Zimbábue.

A orientação é que a notificação de casos suspeitos ou confirmados da nova variante seja imediata. Em casos suspeitos de viajantes oriundos de países com a circulação da cepa, a pessoa deve ser monitorada por 14 dias quando apresentar sintomas da doença e por sete dias caso esteja assintomática.

A Folha também procurou nesta sexta o Cosems (Conselho de Secretários Municipais de Saúde) do Estado de São Paulo. O grupo, no entanto, afirmouu que ainda não tem subsídios para emitir uma opinião sobre o assunto, segundo sua assessoria de imprensa.

Para o Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), o atual estágio da pandemia exige prudência e cautela. A recomendação é que os gestores da saúde tomem decisões baseadas na situação epidemiológica e no avanço da vacinação nos territórios, mas que também continuem observando os quadros nacional e internacional, com base nas últimas evidências científicas.

“Festas envolvendo multidões, onde é natural que pessoas se descuidem mais das medidas de prevenção, demandam planejamento de meses de antecedência, a exigir uma antecipação do quadro sanitário que é impossível traçar”, disse em nota.

“Ainda que o cenário brasileiro tenha melhorado consideravelmente, o Conass sente-se no dever de apelar a todos os gestores do Sistema Único de Saúde para a necessidade do monitoramento dos dados epidemiológicos e reavaliação das decisões sanitárias para conter novas ondas de contaminação”, completa.

Para o sanitarista Gonzalo Vecina Neto, professor de saúde pública da USP, independentemente da nova variante, o governo deve recuar do Carnaval e do Ano-Novo.

“Vamos ver o que vai acontecer no momento seguinte, se essa variante atravessará o Atlântico e virá para cá. Se isso ocorrer e o perfil dela for semelhante ao da delta e da gama, não muda muito o jogo, mas se ela revelar que é resistente a alguma das vacinas, aí sim veremos o desastre”, afirma.

Segundo o epidemiologista Paulo Lotufo, também professor da USP, as decisões devem ser avaliadas individualmente.

Para o especialista, a liberação do uso de máscaras em locais abertos, o que está planejado para ocorrer a partir de 11 de dezembro no estado de São Paulo, é exequível até o momento. Em relação ao Réveillon e ao Carnaval, Lotufo considera um equívoco.

“A nossa grande esperança é que saiam as vacinas aprovadas para a faixa entre cinco e 11 anos e que a gente consiga em janeiro vacinar a molecada para começar fevereiro na escola todo mundo vacinado. A nossa prioridade é a escola, não Carnaval e Réveillon”, diz.​

Fonte folha.uol.com.br/equilibrioesaude

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