A taxa de mortalidade entre os pacientes internados com Covid-19 nos hospitais públicos e privados do Brasil cresceu em fevereiro e bateu recorde em 11 estados.

Dos pacientes hospitalizados por causa da doença no mês passado, 40% perderam a vida. Em outubro de 2020, esse índice era de 31%, o mais baixo já registrado.

A taxa atual é a segunda maior de toda a pandemia, atrás apenas dos meses de abril e maio passados (42%), quando pouco se sabia de como a doença deveria ser tratada. O atual patamar coincide com aumento brusco no número de casos de Covid-19 e na demanda por leitos hospitalares.

No mês passado, houve recorde de mortalidade nos hospitais de São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rondônia, Rio de Janeiro, Paraná, Piauí, Pernambuco, Pará, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. Destes, Pará e Pernambuco tiveram a maior taxa: de cada 5 pacientes internados com a doença, 3 morreram (60%).

O levantamento foi feito com base em dados do Ministério da Saúde e inclui os casos de hospitalização por Covid em hospitais públicos e privados de abril de 2020 a fevereiro deste ano. Desde então, o contágio e o número de novas mortes aumentou (a atualização dos dados nos próximos dias deverá mostrar situação ainda mais dramática).

Segundo especialistas, a atual grande mortalidade pode estar associada a dois fatores: lotação dos hospitais e maior gravidade do quadro de saúde dos pacientes —que, supõe-se, pode estar relacionada à disseminação de novas variantes do coronavírus.

Para especialistas ouvidos pela reportagem, as altas taxas nos primeiros meses da pandemia estão relacionadas à falta de experiência diante do coronavírus. Naquele momento, os profissionais de saúde ainda aprendiam a lidar com a doença, equipes passavam por treinamento, hospitais de campanha eram abertos às pressas e a procura por leitos se intensificava.

Especialmente no Norte e no Nordeste, onde o coronavírus se disseminou com rapidez, e as redes de saúde têm menos estrutura que no Sul e Sudeste, abril e maio haviam sido os meses com maior mortalidade hospitalar em 2020.

O Amazonas, por exemplo, viveu seu primeiro colapso no sistema público de saúde em abril, com mortalidade de 57%. Com a diminuição dos casos de Covid, o índice chegou a seu ponto mais baixo em junho (26%).

Já em janeiro passado, quando o estado passou por seu pior momento na pandemia e pacientes morreram sem oxigênio nos hospitais, a proporção de óbitos entre os internados teve nova alta e passou de 60%.

O Amazonas vive uma situação menos caótica agora e conseguiu zerar a fila por UTI recentemente. O mesmo não pode ser dito do restante do país.

Levantamento da Folha mostrou que apenas 3 das 27 unidades da Federação tinham lotação das UTIs inferior a 80% no último dia 22.

Há risco de desabastecimento de oxigênio e de medicamentos necessários para a intubação de pacientes, e mais de 6.300 pessoas aguardavam por um leito de terapia intensiva em todo o país na quinta (25), de acordo com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde.

Segundo o monitor da Folha que mede a aceleração da pandemia, há crescimento de novos casos em todos os estados, à exceção do Amazonas.

Só no estado de São Paulo, que tem a maior rede hospitalar do país, mais de cem pessoas já morreram à espera de um leito de UTI.

“Além disso, a superlotação faz com que as pessoas não consigam chegar ao sistema. Muitos não querem ir pro hospital porque não querem passar por essa confusão, e só vão quando o quadro já é muito grave”, afirma Renato Grinbaum, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Ele acrescenta que, em cenário de hospitais lotados, os profissionais de saúde precisam se dividir entre os pacientes e o atendimento fica prejudicado. “Se tem muito paciente, [os profissionais] não conseguem passar com cada um o tempo que deveriam. Também faltam insumos. Você não tem materiais para todos os pacientes, mesmo nos hospitais privados”, diz o infectologista.

Outro ponto é a gravidade do quadro de saúde dos doentes. São frequentes os relatos de médicos e enfermeiros de que nos últimos meses têm chegado aos hospitais pacientes em estado mais avançado da doença, necessitando de cuidados intensivos.

“Isso tem acontecido independentemente de fator de risco ou faixa etária”, diz Raquel Muarrek, infectologista da Rede D’or em São Paulo.

Ela afirma que se tornaram mais numerosos os pacientes de Covid com quadros que incluem problemas renais e de circulação, o que implica tratamentos mais complexos e riscos mais altos. “Temos também um maior número de pacientes com intubação, e com mais tempo de internação”, afirma.

Ainda é cedo para afirmar com precisão, mas pesquisadores levantam a hipótese de a maior gravidade da doença estar relacionada à disseminação de novas variantes, especialmente a de Manaus (P.1).

Estudo elaborado por pesquisadores da FioCruz Amazônia estima que a carga viral de pessoas infectadas pela P.1 seja até dez vezes mais alta, e pesquisas sugerem que há uma relação entre a carga viral e a gravidade da doença.

Nesta semana, a Prefeitura de São Paulo divulgou um estudo em parceria com a USP que indica que a variante de Manaus é prevalente na cidade.

Fonte folha.uol.com.br/equilibrioesaude

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