Desempregado, pai de três filhas, o autônomo Roberval da Paz, 45 anos, madruga para garantir aquela que, por muitas vezes, ao longo de 2020, com a pandemia, chegou a ser a única refeição do dia em casa: a marmita distribuída por um dos dois restaurantes populares mantidos pela Prefeitura de Salvador.

Como em Salvador, outras capitais brasileiras veem aumentar a fila de pessoas que buscam um pedaço de pão ou marmitas, como no Rio de Janeiro.

Roberval da Paz é apenas mais um na fila de refeições para pessoas em situação de vulnerabilidade social ou informais que perderam renda na pandemia, no bairro de Pau da Lima, periferia da capital baiana. Aberta em maio de 2020, a unidade distribuía 350 quentinhas por dia até fevereiro passado, mas subiu para 500 com o aumento da procura.

A quantidade é a mesma oferecida na unidade localizada no bairro de São Tomé de Paripe, também na periferia de Salvador. O município planeja abrir, nos primeiros dez dias de abril, uma unidade móvel no centro histórico, o que resultará em 1.500 refeições por dia na capital.

Já passava das 10h do último dia 24, quando as primeiras quentinhas começaram a ser entregues em Pau da Lima, para gente que compartilha o drama diário de se aglomerar, no auge da pandemia, em busca de um prato de comida pela sobrevivência, muitas vezes sem o desjejum.

“Se não fosse isso aqui, nossa situação estava bem pior. Ao longo do ano passado, por várias vezes, minha única refeição do dia era essa. Racionava pra almoço e janta, pra deixar o que a gente conseguia comprar pra nossas filhas”, calcula Roberval.

São R$ 200 do Bolsa Família para cinco pessoas na casa, incluída a esposa, professora cuja renda foi afetada pela pandemia. Está há três meses sem receber o salário reduzido para R$ 300 no ano passado, como parte do programa adotado pelo governo federal para evitar demissões.

O também desempregado Gutemberg Correia, 37, chega seis horas antes da distribuição das quentinhas, que normalmente começa às 11h. “Divido com minha mãe, que também está sem trabalho”, diz o homem, cuja família não conseguiu auxilio emergencial em nenhum momento.

Titular da Sempre (Secretaria de Promoção Social), Kiki Bispo fala sobre uma mudança no público que passou a buscar as refeições com o avançar da pandemia. “Antes, a maioria era pessoas em situação de rua. Hoje, vemos muitos trabalhadores desempregados, autônomos, ambulantes.”

O secretário afirma que, a partir da segunda onda do novo coronavírus no país, no final do ano passado, junto com a suspensão do pagamento do auxílio emergencial, houve aumento na busca por benefícios sociais do município. “Por causa do enfraquecimento das finanças das pessoas”, afirma.

Enquanto cresce a procura por comida pronta, as doações para compra e distribuição de alimentos despencaram 90% em um ano, no Brasil, segundo dados da ONG Ação da Cidadania, fundada em 1993 pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.

A entidade do terceiro setor distribuía pelas capitais brasileiras cerca de 80 mil cestas básicas, nos primeiros meses da pandemia, número que caiu para aproximadamente 8 mil. Mil delas, o equivalente a dez toneladas de alimentos, foram entregues essa semana em Salvador.

Foram atendidas as instituições Pastoral do Negro (450 cestas), o Comitê da Ação da Cidadania em Salvador (450 cestas) e a Instituição Assistencial Beneficente Conceição Macedo, que atende famílias com crianças com HIV, com 100 cestas.

Mãe de cinco filhos, Amarile Oliveira, 25 anos, tem sobrevivido à base de doações como a cesta que recebeu para alimentar a família. Sem trabalho formal, faz qualquer bico para pagar o aluguel em uma pequena casa na região do centro histórico de Salvador.

“Estamos vivendo somente com as doações das pessoas, porque eu não estou achando trabalho, ainda mais com as medidas de restrição. A cesta dura duas semanas, mas garante a alimentação para as crianças”, assegura ela, que não tem profissão nem recebe nenhum benefício social.

Mãe de dez filhos, a cuidadora de idosos Eliana Oliveira, 38, também viu as oportunidades de trabalho minguarem em 2020. Passou a vender balas entre os carros nas ruas do centro histórico de Salvador para garantir o mínimo para a família não passar fome.

“Essa cesta é a garantia de que vai ter um pouco de comida na mesa, na hora certa, para as crianças. Serve para 12 pessoas em casa e, às vezes, ainda chega um vizinho, um parente para compartilhar”, conta a mulher, cujo imóvel alugado onde vive tem apenas um vão.

Diretor executivo da Ação da Cidadania, Rodrigo Kiko Afonso lamenta que as doações começaram a cair no final do ano passado, após a campanha Natal Sem Fome, devido à crença de que a pior fase da pandemia estava por passar.

“As pessoas acreditaram que a pandemia se aproximava do fim e, com isso, as doações não seriam mais necessárias”, disse. “A segunda onda, muito mais forte do que em 2020, levou a uma piora de todos os indicadores sociais e econômicos”, completa.

O quadro de insegurança alimentar no Brasil, que atinge cerca de 85 milhões de pessoas, vem de antes da pandemia, aponta Afonso. “A pandemia só fez agravar essa situação, sobretudo para os mais vulneráveis”, continua.

O diretor pede pela continuidade das doações em 2021, diante da explosão de casos da doença, com mais de 300 mil mortos. “A gente precisa muito da sociedade civil, das empresas, porque o auxílio emergencial que vem aí é muito menor, o desemprego maior e, infelizmente, não vemos melhora no horizonte”,

Fonte folha.uol.com.br/equilibrioesaude

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