Os vídeos que registram pessoas sendo vacinadas contra a Covid-19, à noite, no pátio de uma empresa em Belo Horizonte, foram registrados por um grupo de vizinhos que moram em uma rua próxima ao local, no bairro Alto Caiçaras, e que foram os responsáveis pela denúncia anônima à Polícia Militar. 



O caso da vacinação às escondidas foi revelado na quarta-feira pela revista piauí que afirma que um grupo de empresários e políticos de Minas Gerais, a maioria ligada ao setor de transportes, teria pago R$ 600 pelas duas doses do imunizante da Pfizer. 



Eles teriam adquirido a vacina por iniciativa própria, sem fazer doações ao SUS, como previsto em lei até então — uma decisão da Justiça federal derrubou a obrigatoriedade das doações por entidades privadas nesta quinta, mas cabe recurso. Ainda segundo a revista, cerca de 50 pessoas receberam a primeira dose na vacinação em BH.

O Ministério Público Federal em Minas Gerais abriu procedimento para apurar o caso e a PF abriu inquérito. A Pfizer, por meio de nota, negou “qualquer venda ou distribuição da sua vacina contra a Covid-19” fora do âmbito do Programa Nacional de Imunização” e afirma que seu imunizante não está disponível em território brasileiro.

Uma das pessoas que testemunhou a vacinação às escondidas, na terça-feira, é uma mulher que perdeu o emprego depois que o hotel onde trabalhava como camareira fechou na pandemia. Ela prefere não se identificar por temer represálias.

Sem receber auxílio emergencial, ela disse ter ficado revoltada com o episódio. Os pais dela só terão acesso ao imunizante a partir desta sexta-feira, pelo cronograma por faixa etária divulgado pela prefeitura de BH.

“Eu preciso voltar a trabalhar, estou desempregada. Os bonitões ficam vacinando e os que precisam mesmo, não tem como. É muita revolta, tanta gente precisando. Isso quer dizer que só quem tem dinheiro, tem poder pode ter direito à vacina? E os pobres, os que precisam?”, disse ela à Folha.

As imagens foram divulgadas pelo portal R7 e outros veículos de comunicação durante o dia.

A filha dela, de 16 anos, que registrou alguns dos vídeos, conta que a mulher de jaleco branco que aplicava as doses percebeu que estava sendo filmada depois de um tempo e fez um gesto com o dedo do meio erguido na direção da casa onde a família estava. Ela não conseguiu registrar a imagem. 



Outro vídeo registrado pela jovem, de menos de um minuto, mostra a mulher de jaleco aplicando uma injeção e o pátio lotado de carros com as luzes acesas. No registro policial, foi apontado que havia cerca de 25 veículos no local.

Segundo os moradores, foi o fluxo intenso de carros, por volta das 19h30, que chamou a atenção. O pátio da empresa, que pode ser avistado quase inteiramente das casas, não costuma ter movimento, especialmente nesse horário.

Por volta das 19h50, eles chamaram a Polícia Militar para denunciar o fato, e a vacinação prosseguiu. A onda roxa, fase mais restritiva do plano do governo de Minas para retomar atividades na pandemia, impositiva a todo estado e adotada em Belo Horizonte, prevê toque de recolher entre 20h e 5h.

Ainda de acordo com relatos dos moradores, a viatura da Polícia Militar só chegou por volta das 20h40. Eles dizem que dois carros estavam deixando a empresa, um veículo branco e um preto, e nenhum foi abordado. Segundo uma moradora, os policiais alegaram não terem parado os veículos por não terem mandado para tal.

O registro policial da ocorrência aponta hora da comunicação às 19h51 e diz que a ocorrência foi encerrada às 23h36. Nele, os policiais dizem que foram recebidos por duas pessoas que se identificaram como seguranças e relataram que houve “uma pequena reunião dos diretores da empresa, mas que todos já haviam deixado o local”. 


O registro também diz que os policiais entraram na empresa junto com a Guarda Municipal, um fiscal de atividade urbana e controle ambiental e outro da Vigilância Sanitária, mas que nada foi constatado. A pessoa que se apresentou aos policiais como sendo autora da denúncia anônima disse que encaminharia os vídeos à Secretaria Municipal de Saúde.

A secretaria disse não ter recebido oficialmente os vídeos. A pasta também afirma que, depois de “minuciosa inspeção feita pela Vigilância Sanitária” e por não terem sido encontradas evidências no local durante a vistoria, não há amparo legal para ações da prefeitura.

No endereço registrado na ocorrência, não há placas ou identificação externa da empresa. Um funcionário disse à Folha que ali funciona a Cia Coordenadas, pertencente à Saritur. Por mapas, o local é indicado como Companhia Atual de Transportes.

Caminhões no pátio continuam o adesivo da Coordenadas e funcionários vestiam uniforme com a logomarca da Saritur nas costas, na tarde de quinta.



A assessoria da Saritur, porém, nega que a Coordenadas pertença ao grupo. A reportagem não conseguiu contato com a Coordenadas até esta publicação.

Fonte folha.uol.com.br/equilibrioesaude

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