Há alguns meses, Priscila Santos da Silva, 25, comprou um videogame para Felipe e Gustavo. O pedido dos dois filhos de cinco anos foi resultado das muitas horas que a família tem passado em casa depois que a escola parou.

Morando no Jardim Pantanal, na zona leste de São Paulo, os irmãos estão entre as milhares de crianças de favelas brasileiras que viram os espaços para brincar minguarem com o início da pandemia, ampliando mais uma das desigualdades entre ricos e pobres no país.

A pesquisa “O Brincar nas Favelas Brasileiras”, divulgada recentemente, mostra que 85% das mães de comunidades afirmam que os filhos têm se entretido, sobretudo, no quintal ou dentro da residência, o que acontecia em 63% dos lares antes da Covid-19.

A escola ou creche como espaço para as brincadeiras caiu de 50% para 9%, e a pracinha do bairro, por exemplo, encolheu de 21% para 14%, apesar de ambos estarem entre os lugares que as mulheres mais citam quando questionadas sobre onde gostariam que os pequenos se divertissem.

Com isso, a maioria das mães tem tido dificuldade em conciliar todas as suas atividades e achar tempo para estudar ou brincar com as crianças, que ficam principalmente assistindo à TV e brincando com os irmãos ou sozinhas.

A pesquisa foi feita pelos institutos Locomotiva e Data Favela em parceria com a agência Purpose e a Fundação Lego. Foram entrevistadas de forma online 816 mães de comunidades pelo país com filhos de até seis anos, entre 31 de outubro e 9 de novembro, além de abranger conversas e observações com 12 mulheres.

Elas são em sua maioria negras e se declaram chefes de família —pouco mais da metade está solteira ou separada. Cerca de um terço é dona de casa, e outro terço está desempregado, sendo que a renda média é de R$ 827, menos que um salário mínimo.

“Ocorreram dois fenômenos na pandemia. Um, mais óbvio, foi o aumento do déficit educacional entre crianças ricas e pobres, que não têm as mesmas tecnologias e acompanhamento dos pais. Mas houve também o aumento do déficit no direito de brincar”, diz Renato Meirelles, presidente do Locomotiva e fundador do Data Favela.

“A criança pobre não tem condomínio, espaço público à disposição, profissionais especializados na brincadeira como babás e professores, e as escolas públicas retornaram menos às aulas do que as privadas. Essa desigualdade ficou mais trágica agora”, afirma.

A ausência total de espaços para se divertir nas comunidades é relatada por 30% das mães, incluindo praças, parquinhos, quadras, ONGs, associações ou projetos culturais. As praças são os equipamentos mais comuns nessas áreas, citadas por metade das mulheres.

A pesquisa aponta ainda uma série de problemas urbanísticos que podem atrapalhar e gerar riscos, trazendo fotos de vias sem pavimento, becos irregulares, escadas e córregos sem proteção, lixo e poças d’água sujas.

Outro obstáculo importante é o contexto social da favela. Questionadas sobre os fatores que impedem que os filhos brinquem na rua, 72% das mães mencionam o uso de drogas ao ar livre e 64%, a violência na região. A presença de carros, brigas, “mau exemplo” dos moradores e bailes funk também estão entre os receios.

Morando a alguns passos de várias bocas de fumo, Priscila é uma das que não costuma deixar as crianças do lado de fora. “Tem gente que fica fumando maconha, aí não gosto que eles fiquem vendo. Aqui não tem tiroteio como no Rio, por exemplo, mas tem vez que os moleques roubam um carro e vêm para cá, aí entra polícia, tenho medo”, conta.

Todos esses fatores somados sobrecarregam ainda mais as mulheres. O estudo conclui que o maior tempo de convivência com os filhos na pandemia não as levou, necessariamente, a participar mais ativamente das brincadeiras, já que “boa parte desse tempo acabou preenchido por intermináveis tarefas domésticas”.

Questionadas sobre situações que estão enfrentando, 86% afirmam que não têm tempo para si e mais de 60% relatam problemas para conciliar o cuidado com a casa, o trabalho e as crianças. Consequentemente, a maioria tem dificuldade em achar tempo para auxiliá-las nos estudos e metade, para brincar com elas.

O resultado é que, quando estão atarefadas, elas acabam recorrendo às telas: 66% costumam deixar os filhos assistindo a desenhos na televisão e 48%, jogando no celular ou tablet, ainda que isso implique em uma série de preocupações quanto ao conteúdo visto.

“Ultimamente eles ficam bastante no videogame, que comprei porque estavam pedindo muito. Na Netflix veem mais desenho de criança, mas como o YouTube é mais aberto eu só deixo eles mexerem quando estou perto”, conta Priscila, que preferiu não levar os dois meninos de cinco anos às aulas presenciais após duas professoras pegarem Covid.

Meirelles, do instituto Locomotiva, analisa que a pandemia acabou com uma parte do brincar relacionada à educação. “O brincar na escola, socializando com outras crianças sob supervisão de alguém, foi fortemente prejudicado”, afirma.

Outro problema é que, na prática, os mais velhos deixam de fazer suas próprias coisas para cuidar dos mais novos. Quatro em cada dez mães dizem que é com os irmãos que os menores brincam quando elas estão ocupadas. O pai aparece em apenas 13% das respostas.

Essas dificuldades vão permanecer quando as escolas voltarem ao normal e a crise do coronavírus passar? Meirelles acha que algumas podem se dissipar, mas muitas são reflexos de problemas estruturais. “O déficit de espaços públicos, creches e outros problemas permanecem”, diz.

As mães de favelas lamentam diante da consciência da relevância que as brincadeiras têm no desenvolvimento da criança. Em uma escala de 0 a 10, 78% classificam como 9 ou 10 o nível de importância das brincadeiras para o aprendizado.

Fonte folha.uol.com.br/equilibrioesaude

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