A anestesia foi uma picadinha discreta. Mas, em seguida, eu deixei de existir por 21 dias, sobrevivendo como um enorme repolho inerte e intubado na UTI do hospital.

Uma das perguntas que mais me fizeram foi sobre o que pensei ou senti ao longo desse túnel escuro. Encontrei Jesus? Conversei com os mortos? Bobagem. Os medicamentos desligam parte do sistema nervoso central para que não possamos sentir dores ou o incômodo por aquela coisa enfiada na traqueia.

Mas, por uma questão de livre arbítrio, eu bem que gostaria de ter sido consultado por algum interlocutor poderoso: você quer partir ou quer ficar? É claro que eu queria ferrenhamente ficar. Que fosse por meu filho de 11 anos ou pelo afeto que me prende às artes e às pessoas.

Como não me consultaram, de concreto existem apenas os delírios que chegam junto com o despertar. A vaga consciência de que eu continuava vivo chegava com cenários quixotescos em minha cabeça tonta de sobrevivente.

Dou um exemplo. Nós, jornalistas, somos prepotentes, e eu “soube” por meus delírios que a Argentina decidira depositar sigilosamente no Brasil as ossadas de seus mais ilustres cidadãos.

Já haviam chegado a do general Manuel Belgrano, de Eva Duarte Perón —a Evita— e de mais um arcebispo de La Plata recentemente chamado ao convívio do Senhor.

Junte-se a essas informações o detalhe pitoresco de que as sepulturas foram reerguidas verticalmente em mármore branco. Um simulacro do cemitério da Recoleta, em Buenos Aires. E onde? Ora, no canteiro central da rua Henrique Schaumann, bairro paulistano de Pinheiros.

Outro delírio consistia em acreditar que o helicóptero do governo do estado deixava no hospital, nas madrugadas, um carregamento de pães fresquinhos que as enfermeiras insistiam em não dividir comigo.

Com minha racionalidade partida em pedaços, previsível o desastre das primeiras tentativas de diálogo com a competentíssima neurologista que me atendia.

Em que ano nós estamos? Em 1942. Onde que o senhor nasceu? Salvador, Bahia (cidade onde estive apenas um par de vezes, a trabalho).

Minha mulher ficou preocupada. Pensou que o coronavírus, depois de meus pulmões e de meus músculos, estava avançando guloso sobre meu cérebro.

Mas foi tudo uma questão de exercício. Passei a traduzir para o francês ou para o inglês fragmentos de conversa que circulavam no hospital.

Veio, então, uma surpresa desagradável. Eu não conseguia mais andar. Eram sequelas neurológicas pós-Covid. Imaginei que os coronavírus formassem um coletivo de bilhões de priminhos dos ácaros, com bocarras predispostas a comer por dentro meu patrimônio muscular.

A essas alturas, eu já completava uns 50 dias de Hospital Sírio-Libanês e caía de cabeça na fisioterapia. Ela exigia de mim uma força que provisoriamente eu não tinha mais. Isso me exasperava, me deixava humilhado diante de mim mesmo.

As partes de baixo não me deixavam andar. As partes de cima me impediam de levar comida até a boca ou de pentear os cabelos. Mas a fisioterapia era o caminho.

Ou melhor, um dos caminhos O primeiro passo mais ousado e competente foi dado pela neurologista Gabriela Pimentel, uma das feras da nova geração do Sírio-Libanês. Ela determinou a injeção em meu organismo de imunoglobulina feita a partir de pacientes do bichinho já recuperados. Creio ter sido o que pesou em definitivo para eu abandonar biologicamente os riscos do lado de lá e abraçar a lógica daqueles que deverão viver.

Cabe aqui uma pequena reflexão sobre o que vem a ser a vida. Uma reflexão que me foi involuntariamente ensinada quando, na Sexta-feira Santa, e ainda internado, minha mulher sintonizou pela Cultura FM uma transmissão da “Paixão segundo São Mateus”, de Bach.

Nos primeiros quatro compassos, eu caí num choro compulsivo. Não era de dor. Era de felicidade. Um estado de graça como o descrito por santo Agostinho.

A coisa cresceu dentro de mim mais ou menos assim: não estou apenas feliz por me ver diante do que é belo; minha felicidade vem do fato de eu estar vivo para experimentar sensorialmente a beleza da cantata barroca.

Horas depois, sensação semelhante ocorreria com a marchinha de Carnaval “Balancê”, que Braguinha e Alberto Ribeiro escreveram nos anos 1930. Para mim, a comoção estética não se deu exclusivamente pela música de concerto, por mais que ela a tivesse desencadeado —um dos sextetos para cordas de Brahms, uma sinfonia do Camargo Guarnieri.

Em palavras mais cruas, se o coronavírus tivesse me levado, eu não estaria mais aqui para ouvir certas músicas, ler certos romances e poemas, como “The Waste Land”, do T.S. Eliot, reassistir aos poucos e incríveis filmes que frequentaram minha alma.

Gente, em resumo, como é lindo viver.

Fonte folha.uol.com.br/equilibrioesaude

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