O estado de São Paulo já estuda antecipar mais uma vez a meta de vacinar todos os seus habitantes com 18 anos ou mais até 15 de setembro, segundo um integrante da cúpula do governo paulista e um outro envolvido na coordenação do combate à epidemia de Covid-19.

Entre os motivos do otimismo estão: 1) a aceleração da vacinação na semana passada, que contou com grande presença das pessoas da faixa dos 50 anos; 2) perspectiva menos incerta de que o cronograma de entrega de doses para o governo federal seja cumprido.

Gente da gestão de João Doria (PSDB) diz que a ideia de antecipar o calendário vai além da “brincadeira saudável” com o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), que na sexta-feira (18) antecipou a meta carioca de aplicar a primeira dose em todos os adultos para 15 de agosto e disse que ultrapassará São Paulo.

A Secretaria de Saúde não explicita as premissas que baseiam a projeção de aplicação atual (leia mais adiante), que depende fundamentalmente da entrega de doses para o governo federal. Mas esse integrante da cúpula do governo diz que há “dados novos promissores” e que, não havendo frustração crítica do cronograma federal, a discussão em setembro pode ser diferente. Haveria vacina para dar a primeira injeção em 100% dos adultos e ainda sobraria dose nos postos.

A especulação é que nem todos os adultos comparecerão aos postos para se vacinar ou podem se atrasar para fazê-lo. Segundo Datafolha de maio, 8% dos entrevistados no Brasil não pretendem se vacinar (12%, no grupo de 35 a 44 anos).

Cerca de 15% das pessoas de 60 anos ou mais não haviam tomado a primeira dose até 13 de junho em São Paulo, segundo dados calculados em levantamento feito pela Folha na base federal de dados de vacinação. Entre aquelas pessoas com 70 anos ou mais, seriam 8% sem dose 1. A vacinação para esse grupo começou em 8 de fevereiro (90 anos ou mais) e em 26 de março para aqueles com 70.

Até fevereiro, antes da vacinação em massa, cerca de 77% do número de mortos de Covid acumulado no estado tinham 60 anos ou mais. Medida apenas a semana passada, esse grupo era 49% do total.

Gente envolvida no combate à epidemia em São Paulo diz basear parte do seu otimismo em conversas recentes com o Butantan e a Fiocruz, que teriam passado a informação de que há mais segurança de recebimento de insumos da China e, pois, de produção de doses.

Anima-se também com as entregas de doses da Pfizer, que tem até agora cumprido os prazos. No cronograma federal, do total de doses que seriam entregues em julho, agosto e setembro, cerca de 23% são de AstraZeneca, 28% de Coronavac e 49% de Pfizer.

A estratégia de vários governantes de estabelecer meta de vacinação de dose 1 para todos os adultos deveu-se à maior oferta de vacinas que podem ser aplicadas com intervalo de até 12 semanas (AstraZeneca e Pfizer, 72% das doses a serem oferecidas de julho a setembro), ao aumento do número de doses disponíveis e a um estoque de segurança mais elevado.

Três estudos publicados nas revistas médicas BMJ e The Lancet em março e maio deste ano indicam, em seus resultados mais conservadores, que uma primeira dose de AstraZeneca ou Pfizer pode evitar internações em pelo menos 70% dos casos. A depender da estratégia paulista, é possível que quase todos os que tomaram dose 1 de Coronavac virão a ter tomado a dose 2 até 15 de setembro. Nos testes de fase 3, a vacina fabricada no Butantan evitaria internações em 78% dos casos.

Ainda seria preciso tomar os mesmos cuidados (máscaras, distanciamento), mas os riscos teriam diminuído (caso não surja variante de preocupação nova).

Alguns especialistas dizem que há estratégias melhores de vacinação, como dirigir as doses para estados ou regiões em que a epidemia é mais grave, em vez de mirar grupos de idade, por exemplo, plano que exigiria coordenação nacional.

É o caso da física Patrícia Magalhães, pesquisadora no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e coordenadora do grupo multidisciplinar Ação Covid, que entre outros estudos tenta estimar a necessidade de vacinas em cada estado a fim de baixar o número de casos de modo persistente, dados o ritmo de transmissão da doença e da vacina aplicada, e do epidemiologista Paulo Lotufo, da USP.

Cálculo de projeção do governo envolve indicadores incertos

Quanto aos dados de cobertura vacinal (quanto de cada grupo recebeu a vacina), os indicadores não podem ser tomados ao pé da letra —ou do número. A estatística federal é defasada em relação à dos estados. Há divergência sobre o tamanho da população. Na projeção do IBGE, o estado de São Paulo teria 35,79 milhões de habitantes em 2021; na do Seade, instituto estadual de estatísticas, 34,8 milhões.
Parte da população morreu além do estimado pelos estatísticos. No estado de São Paulo, 84.770 dos 122.160 mortos de Covid-19 até dia 19 de junho tinham 60 anos ou mais.

No que diz respeito às projeções de vacinar todos os adultos até 15 de setembro ou antes, a Secretaria de Saúde não apresenta as premissas que basearam os cálculos de seu planejamento, afora as mais gerais.

Até sábado, o Ministério da Saúde informava ter entregado cerca de 27,48 milhões de doses a São Paulo. Até então, o estado aplicara 21,7 milhões dessas doses, das quais 15,7 milhões como dose 1. Faltariam cerca de 20 milhões de doses 1 para vacinar todos os adultos até 15 de setembro.

Além do mais, existe uma “dívida” de doses 2 (pois quem já tomou a dose 1 precisa tomar a dose 2 até certa data), passivo que pode ir de 9 milhões a 11 milhões de doses, a depender da estratégia do uso de marca de vacina ou velocidade de aplicação. O número de doses necessário para cumprir a meta é uma soma de doses 1 com a “dívida” de doses 2.

Além de seu estoque e das doses que devem chegar em junho, SP receberia quase 38 milhões de doses de julho a setembro (cerca de 30,7 milhões, considerando que a meta paulista é no dia 15 daquele mês).

Isto é, quanto mais doses 1 de Coronavac o estado aplicar, mais doses 2 ficará “devendo” (o intervalo máximo no caso desta vacina é de 28 dias). A partir de 23 de junho, todas as doses 2 de AstraZeneca e Pfizer serão “devidas” apenas depois da data da meta de 15 de setembro.

São Paulo acelerou a dose 1. Até antes de junho, 67% das doses iam para primeira injeção; desde o dia 9 de junho, quando anunciou metas de vacinar todos os adultos, 97% das doses foram para a primeira picada.

Em cenários em que 100% do cronograma federal é cumprido, 100% das vacinas previstas cheguem em cada mês e que 100% das doses são aplicadas no mês, todos os adultos recebem a primeira injeção de vacina contra a Covid-19 e sobram milhões de doses em 15 de setembro.

No entanto, não é fisicamente possível distribuir todas as vacinas nesse prazo (o Ministério da Saúde tem entregue cerca de 94% das que recebeu).

Do estoque que recebeu, São Paulo aplicou 79% (um número comparável ao dos EUA), embora tenha acelerado muito o ritmo desde que anunciou a meta de antecipação. Em junho, até dia 9 dava 156 mil doses por dia; desde então até dia 20, 300 mil doses. Segundo a Secretaria de Saúde paulista, o estado é capaz de aplicar até 1 milhão de doses por dia.

Em cenários de frustração do cronograma federal e do ritmo de vacinação, a meta pode não ser cumprida, embora o atraso possa não ser grande e seja quase nenhum o risco de faltar dose 2. O risco maior ainda é a própria epidemia. Com exceção de abril, a situação da epidemia, em número de mortes, é a mais grave. Em termos de internações em UTIs, é o pior momento com exceção de março e abril.

Fonte folha.uol.com.br/equilibrioesaude

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